Joaquim de Sousa Oliveira

Título

Joaquim de Sousa Oliveira

Direitos

Real Associação Humanitária de Bombeiros Voluntários de Vizela

Data

1942
1948-02-28

Data de criação

1942

Descrição

Joaquim de Sousa Oliveira toma posse como Presidente da Direção da Real Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Vizela em 1942, cargo que ocupa até 24 de Fevereiro de 1948.

Tema

Joaquim de Sousa Oliveira
Beneméritos
Presidentes da Direção

conteúdo

Nasceu a 27 de fevereiro de 1897, filho de Emília Oliveira, em Moreira de Cónegos, mas cedo fez de Vizela a sua terra.

 

Casou com Ana da Costa de Sousa Oliveira e foi pai de 6 filhos, Emília Costa Oliveira de Araújo Pinheiro, Fernanda Costa de Sousa Oliveira de Faria, António de Sousa Oliveira e Manuel de Sousa Oliveira, e duas meninas, Laura e Isaura, que faleceram em tenra idade.

 

Na escola teve como professor o Padre Laurentino de Sousa.

“Ainda hoje é imensamente conhecido o respeito que o comendador Joaquim de Sousa Oliveira nutre pelo seu falecido mestre: o Padre Laurentino”.[1]

 

De origem humilde, ingressou na indústria têxtil ainda criança.

“Aos 10 anos foi trabalhar com o seu pai como aprendiz de debuxador na Fábrica a Vapor do Castanheiro, em Guimarães. … Tratava-se de uma criança, em boa verdade, a brincar com coisas sérias. Mas com tal dedicação e prematura responsabilidade das suas atribuições que, dois anos depois, lhe era conferido um prémio de 20 000 réis, por ter executado o mais lindo desenho para uma colcha”.[2]

 

Na sua juventude passou ainda pela Fábrica Delfim Ferreira, em Arcozelo e pelas Fábrica de Sedas Nogueira, no Porto, com um registo de funcionário competentíssimo.

 

Aos 30 anos, em 1927, rumou à Checoslováquia, em busca de saber mais sobre a indústria têxtil e no seu regresso, imbuído de novos métodos de trabalho e conhecimentos técnicos, torna-se o primeiro português a trabalhar com seda artificial.

 

Em 1933, a Têxtil das Azenhas Novas, fábrica de tecidos, da qual se tornou sócio e gerente técnico, é condecorada com a medalha de ouro na Grande Exposição Industrial Portuguesa. Foi nesta fábrica, devido a um acidente de trabalho, que perdeu um braço.

 

Possuidor de um dinamismo e de uma vontade de realização invejáveis, lançou depois mão de um projeto industrial próprio, que começou pequeno mas foi crescendo na medida do seu esforço, a Têxtil de Sedas Vizela.

 

Desde 1937, implementada próximo do rio Vizela, na freguesia de S. João empregou famílias inteiras durante décadas e foi uma das mais emblemáticas empresas têxteis do concelho.

 

Foi um grande industrial, mas também político, filantropo, dirigentes de diversas instituições, benemérito, pai de família e vizelense bairrista.

 

Como vereador municipal assumiu o Pelouro da Assistência da Câmara Municipal de Guimarães e muito se dedicou aos assuntos de Vizela, tendo sido da sua responsabilidade a conclusão da estrada para Vilarinho.

 

Presidiu ou foi membro de destacadas instituições em Vizela e Guimarães e de todas recebeu rasgados elogios e homenagens.

 

Em 1942 toma posse como Presidente da Direção da Real Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Vizela, cargo que ocupa até 24 de Fevereiro de 1948.

 

É sob a sua direção, em 1944, que no 67º aniversário dos Bombeiros Voluntários de Vizela é dada a boa nova da construção de um novo quartel.

“O Presidente benemérito das casas de caridade da nossa terra, já benemérito também dos bombeiros, Sr. Joaquim de Sousa Oliveira, abriu uma subscrição para tal efeito, com a oferta de vinte mil escudos. Este benemérito não é de muitas falas mas sim de grandes obras. Deus lhe dará o pago.”[3]

 

Em jeito de homenagem e agradecimento, a 27 de janeiro de 1952, a Direção dos Bombeiros Voluntários de Vizela propõe para aprovação na Assembleia Geral que o nome de Joaquim de Sousa Oliveira fosse dado à ambulância oferecida pelo mesmo. Joaquim de Sousa Oliveira pede para permanecer anónimo, mas a Direção mantém-se fiel à deliberação da Assembleia Geral.

Joaquim de Sousa Oliveira insiste na sua decisão de não querer o seu nome num veículo da Associação e ameaça com a sua demissão de sócio. A Direção acata o seu desejo.

 

É a 26 de julho de 1959 que a Real Associação Humanitária de Bombeiros Voluntários de Vizela homenageia o seu grande benemérito Joaquim de Sousa Oliveira.

A direção e o seu presidente José Luís de Almeida e um piquete de bombeiros, em casa do homenageado, entregaram-lhe o diploma de sócio benemérito e ainda a medalha de ouro duas estrelas da Liga dos Bombeiros Portugueses.

 

Para além da Real Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Vizela, Joaquim de Sousa Oliveira assume também funções na Santa Casa da Misericórdia de Guimarães enquanto membro da Mesa Administrativa e não esquece Vizela. Em maio de 1945, oferece 5000 escudos para melhoramentos no Hospital de Vizela.

 

Vizelense bairrista, tem a sua terra natal no centro das suas preocupações e desejos.

 

 “Ele gostaria de transformar Vizela num recanto paradisíaco, de a dotar com maiores belezas e comodidades se lho consentissem”. … Assisti a uma breve cena que tocou fundo a minha sensibilidade. … Ele inquiria por uma morada pois queria saber como passava um moço a quem há pouco tinha oferecido uma perna artificial … No meio das graves preocupações e das crescentes responsabiblidades da sua agitada vida de industrial … não se esquecera daquele inditoso jovem e fora de propósito bater à sua porta perguntar se seria preciso mais alguma coisa.” [4]

 

A preocupação social que revela com os mais desfavorecidos está também na base do primeiro bairro social existente em Vizela.

 

A 1 de janeiro de 1953 são inauguradas, cum uma simplicidade tocante, as Casas dos Pobres, inteiramente custeadas por Joaquim de Sousa Oliveira e dadas aos pobres pela Conferência de S. Vicente de Paulo. Denominado Bairro S. José, situa-se na Cruz Caída e é constituído por 6 casas com respetivo quintal.

 

“Estivemos … no lugar de Cruz Caída e ali verificamos o grande número de lindas e airosas moradias edificadas e ainda outras que já estão com o respectivo projecto aprovado, tudo em terreno oferecido pelo benquisto benemérito vizelense Senhor Comendador Joaquim de Sousa Oliveira, que até ao presente já presenteou os seus empregados com mais de dez mil metros (10,000 metros) de bom e ótimo terreno para construções”.[5]

 

 “Sua Exa., às grandes indústrias que possui e dirige com as quais sustenta grande parte da população local, alia um coração bondoso que o obriga a não abandonar os humildes e os desprotegidos de sorte. A sua bondade está sempre presente onde houver miséria e necessidade …” [6]

 

Um outro exemplo da atenção que dedica aos mais necessitados são as ofertas que faz pelo Natal, e que encontramos na notícia seguinte, com o título Bem-fazer.

 

“O industrial vizelense Joaquim de Sousa Oliveira, para comemorar a data festiva do Natal, distribuiu pelos pobres das freguesias da vila cerca de duzentos e cinquenta cobertores e mais agasalhos”.[7]

 

A sua generosidade estendeu-se ainda ao Futebol Clube Vizela e em 1954, numa assembleia-geral é nomeado sócio benemérito, o sócio e amigo número um do clube, o Comendador Joaquim de Sousa Oliveira.

 

“Não existem dúvidas de qualquer espécie que este justo galardão dado pelo nosso clube ao maior benemérito da nossa região já há muito se impunha … sempre pronto para tudo e para todos que necessitam, lá aparecia, qual anjo salvador, e a crise passava e a vida do clube continuava. Enumerar as suas dádivas quase sempre avultadas ao clube, tanto em dinheiro como em toda a espécie de materiais, seria um rosário sem fim …” [8]

 

Multiplicam-se as generosas ofertas que Joaquim de Sousa Oliveira faz às diversas instituições da terra e arredores assim como os agradecimentos e as homenagens.

 

Em setembro de 1961, aquando da inauguração do Patronato, o Rev. Padre Albano Freitas, no seu discurso afirma, referindo-se a Joaquim de Sousa Oliveira:

“… dos mil contos que aqui já se gastaram aquele ilustre vizelense já contribuiu com mais de metade.” [9] Na homenagem foi descerrada a efígie em bronze do Comendador e sua esposa.

 

Não só em Vizela é homenageado o Comendador.

 

Em novembro de 1960 é a vez da Santa Casa da Misericórdia de Guimarães homenagear também Joaquim de Sousa Oliveira.

 

Em 1962, a Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Guimarães, no seu 85º aniversário, consagra o seu maior benfeitor, Joaquim de Sousa Oliveira, com a valiosa Medalha de Ouro da Associação.

Os Bombeiros Voluntários de Fafe atribuem-lhe a Medalha de Ouro – Comandante Luís Mário e os Bombeiros Voluntários do Porto  consideram-no Presidente Honorário.

 

Foi ainda Joaquim de Sousa Oliveira que em Março de 1969 disponibilizou as antigas instalações da sua firma, no centro da vila, para que as crianças da encerrada Escola de São João, pudessem ter aulas.

“Podemos mesmo dizer que os pequeninos alunos estão agora instalados em melhores condições do que estavam no edifício escolar agora abandonado.”[10]

 

Faleceu a 30 de março de 1969, na sua Casa no Cruzeiro do Sul, com 72 anos de idade.

 “O infausto acontecimento causou em toda a população verdadeira consternação, pois que o finado pelos seus actos de generosidade e benemerência era merecedor da maior estima e gratidão. [11]

 

O seu nome fica para sempre ligado aos Bombeiros Voluntários de Vizela, à Santa Casa da Misericórdia de Vizela, ao Futebol Clube Vizela, ao Patronato de São João, a diversas obras paroquiais e a tantas outras instituições em Guimarães e nas Taipas.

 

 “Homem simples mas que soube realizar uma obra notável no sector têxtil e no seio das colectividades a que deixa ligado o seu nome, foi merecidamente galardoado tanto pelo Chefe de Estado, que lhe concedeu as insígnias da Ordem de Benemerência, como pelo falecido Pontífice João XXIII que lhe concedeu o grau de Cavaleiro da Ordem de São Silvestre, como reconhecimento de altos serviços prestados à Igreja e às suas Instituições.”[12]

 

No seu funeral participaram milhares de pessoas, de todas as classes sociais, os Bombeiros de Vizela, Guimarães e Taipas, representantes das inúmeras instituições em que serviu, operários das suas empresas e inúmeras personalidades da política, religião, justiça, militares, entre tantos outros.

Enquanto o cortejo fúnebre atravessou Vizela em direção ao cemitério de S. João, o comércio permaneceu fechado em sinal de luto.

 

Em Março de 1976, os operários da firma Joaquim de Sousa Oliveira & Filhos promovem um ato de reconhecimento para com a memória do fundador, Joaquim de Sousa Oliveira e que consistiu no descerramento de um busto no interior da fábrica. Uma cerimónia simples, como simples e modesto foi sempre Joaquim de Sousa Oliveira.

Francisco Faria, o operário mais antigo à altura discursa:

“ … o Senhor Joaquim de Sousa Oliveira também foi sempre, não podemos negá-lo, um trabalhador bem modesto e bem simples. Como industrial foi o homem que mais desenvolveu o trabalho e a economia desta nossa querida terra … não posso esquecer como esta terra passou, rapidamente de 2000 habitantes para os 12.000 que hoje tem.

Ajudou a instrução dos nossos filhos, oferecendo terrenos para as escolas … ajudou os bombeiros … a misericórdia … o patronato … a igreja … e muitas outras iniciativas.”[13]

 

“Actos deste não se comentam com palavras. Não há palavras que as galardoem completamente. Meditam-se. E, na medida da possibilidade de cada um, imitam-se.”[14]

 

A família do saudoso benemérito Joaquim de Sousa Oliveira, em outubro de 1971, oferece à Real Associação de Bombeiros Voluntários de Vizela um terreno para a construção do seu quartel, cuja inauguração se verifica em 1988.

 

A 9 de Fevereiro de 2020, a Câmara Municipal de Vizela inaugura um monumento de homenagem ao Comendador Joaquim de Sousa Oliveira, sito na rotunda de Vilar, em agradecimento a tudo o que fez e dedicou ao Concelho de Vizela.

 

 


[1] AZEVEDO, Correia de. Grandes figuras do Trabalho Vol.II. n.d.

[2] idem

[3] C. "Do Concelho." Notícias de Guimarães (Guimarães), junho 4, 1944, 4.

[4] Mendonça, Aníbal. "Ligeiro perfil de um homem extraordinário por Aníbal Mendonça." Notícias de Guimarães (Guimarães), outubro14, 1962

[5] Notícias de Guimarães (Guimarães). "Caldas de Vizela." Março 8, 1969, 5.

[6] O conquistador (Guimarães). "Pela vila." março 4, 1954.

[7] Notícias de Guimarães (Guimarães). "Do concelho." Dezembro 28, 1958, 8.

[8] O conquistador (Guimarães). "Assembleia-geral do Futebol Clube de Vizela." setembro16, 1954.

[9] O conquistador (Guimarães). "Abertura do Patronato de São João das Caldas." setembro21, 1961.

[10] Notícias de Guimarães (Guimarães). "Do concelho." março 29, 1969, 4.

[11] Notícias de Guimarães (Guimarães). "A morte do comendador Joaquim de Sousa Oliveira." Abril 4, 1969, 3.

[12] idem

[13] Notícias de Vizela 15-03-1976

[14] O conquistador (Guimarães). "Vizela."novembro 20, 1952.